segunda-feira, 29 de abril de 2013

DAS COISAS INFINDÁVEIS


Como é possível trabalhar se tudo leva ao início e ao fim? Difícil conseguir ter concentração quando se tem isso em mente: coisas que começaram e terminaram, ou, principalmente, que começaram e foram interrompidas no meio.
Aquilo que não tem um desfecho vira o membro fantasma que coça sem existir.
E, no entanto, é preciso, não, é uma necessidade, reviver tudo outra vez. Cada passo dado na rua na direção certa ou contrária. Cada palavra dita, escrita, interrompida ou silenciada. Cada gesto feito ou por fazer. Cada sorriso e lágrima. Cada promessa cumprida ou não.
Quando se desiste de esquecer as lembranças?
E o pior é quando existem vários começos que nunca terminam. Duas vias de escape, duas sentenças favoráveis ou não. O redemoinho de pensamentos é tão intenso, a espera tão prolongada que deixa uma sensação de que nada poderá diminuir o tempo que terá que transcorrer até a próxima cena.
Enquanto isso é possível ficar imaginando o que ocorrerá em seguida, embora seja quase certo que nada mudará. A tentativa de prever o que será dito, o que será feito, o que será decidido é, no mais das vezes, improdutiva, pois poucas vezes as coisas acontecem como se planeja.
Por que será que todo final sempre acaba sendo igual ao início?
É estranho quando se sente as coisas com o dobro de intensidade que é considerado normal. As pessoas não conseguem captar ou suportar essa realidade diferente. A possibilidade de que as alegrias, as tristezas, os fatos cotidianos, tudo que possa exercer influência no coração seja controlável é quase nula. E são poucos aqueles que entendem ou suportam essa imensidão que vive em algumas pessoas, que podem ser privilegiadas ou não.
Porque é como se uma bomba termonuclear explodisse no peito da criatura. Os efeitos somente deixarão de existir quando a explosão consumir o mundo e a própria força que ela produziu. A radiação não é nada quando comparada com a devastação produzida pelo choque de átomos e a potencia que eles criam.
Foi assim quando te vi.
E foi assim quando tudo terminou.
Depois disso todos os inícios, os recomeços e os fins não tiveram o mesmo impacto, foram maiores ou menores, embora de pouca duração. Talvez não fossem os átomos certos, com a mesma massa. Mas a radiação deles ficou também.
A radioatividade dos sentimentos dura mais do que a morte deles.
Foi assim quando eu percebi que tudo tinha reiniciado, embora nenhuma mudança tenha ocorrido.

2 comentários:

Andréia Pires disse...

As coisas que ficam perdidas no meio são as piores pra mim. Bonito, bonito, o texto, Adri! Bjocas. Me chama sempre que tiver novidade por aqui. Adoro vir.

adriane disse...

Grata Andréia Pires.
Fico contente que gostaste e que viste a beleza do texto, embora melancólico.
Eu vi essa beleza mas não sabia bem como expressar.
Obrigada e sempre te chamarei sim.
Bjs.