quarta-feira, 21 de agosto de 2013

SOBRE NARCISOS E SEREIAS

Sim, têm dias que eu acredito piamente que chegou a hora.
“Aí está, viu? Está na hora de recompor o teu retrato”, me digo quando observo esse rosto no espelho. Isto é, quando permito que meus olhos vejam alguma parte do rosto que dizem ser meu.
“Ali no cantinho do olho está se formando um pé de galinha. Na testa tem algumas linhas marcantes (eu diria terrificantes!) de expressão. E do lado da boca tem um tantinho de pele meio descaída”, sussurra em meus ouvidos meu lado narcisista.
“É madame, está na hora de passar por um procedimento de recuperação de um pouco de juventude. Vê bem, só um pouquinho, não precisa ser radical (não te preocupa não vou dizer aquelas palavras que detestas, aquelas que começam com ‘ci’ e terminam com ‘rurgia plástica’), mas tens que concordar que já não és mais uma guria e estás começando a ficar preocupada que eu sei. Então, porque não admitir apenas uma pequena reparação, sabe, assim para levantar a autoestima?”
Eu fico ouvindo esse canto de sereia enquanto descasco uma bergamota, ouço música, tomo um mate e medito nas crônicas que estou escrevendo e no meu trabalho de conclusão de pós-graduação. Ouço o barulho da máquina de lavar, secando a roupa que não pude colocar no varal porque está ou estava ou, pelo menos pela cara do céu, deveria estar chovendo, como um relógio que marca o tempo que está escorrendo entre meus dedos, em geral ocupados com as teclas do computador, digitando uma verborragia para pleitear direitos alheios.
“Quando foi que comecei a envelhecer e não percebi? Quando foi que comecei a ouvir essa vozinha dizendo que já estou fora de época e por isso tenho que me repaginar?”
Porque aqui dentro, em algum lugar que eu não quero muito que outros descubram, eu não sinto tanto assim os anos passando, embora eles possam ser bastante pesados às vezes, praticamente impossível de carregá-los. Será que eu sou mais Peter Pan do que Alice?
E aquele papo de que eu não me importo muito com as expressões que a vida marca na nossa pele? Será que é mentira? Ou apenas uma conversa cabeça para mostrar o quanto sou culta e desapegada dessas coisas de aparência (não dizem que o que realmente o que importa é o ser por dentro?), embora eu seja um tanto quanto vaidosa? Claro, se não fosse eu não seria mulher, coisa de que muito me orgulho.
E me pego diante do espelho esticando a testa, as bochechas, me indignando com as olheiras que estão, esta semana, mais salientes debaixo dos olhos míopes que tenho desde a adolescência. Excesso de trabalho, noites mal dormidas, etc., etc., etc.. Porque eu tinha que ter o hábito de tanto ler? Se não fosse por isso talvez eu não tivesse que usar essas lentes com aro pra esconder o meu rosto.
Essas coisas ficam flutuando na minha mente durante o dia, às vezes sumindo, às vezes voltando com tão grande estardalhaço que quase saio correndo do trabalho em direção à clínica de estética para dizer para o profissional que retifica os defeitos genéticos ou adquiridos na nossa carne:
-Dr.! É caso de vida ou morte! Pode cortar, esticar, esfregar, descartar e até polir no final! Mas o sr. tem que me consertar já. Agora. Antes que eu passe dos quarenta.
Naturalmente que ele faria o serviço, com agradável prazer, pois eu iria forrar o seu bolso. Mas talvez, antes disso, ele mandasse me vestirem com uma camisa especial para evitar que eu mesma fizesse o serviço ou mudasse em seguida de ideia, tal seria o desespero que eu iria transparecer.
Então, o dia chega ao fim. Eu, estafada, vou parar numa livraria, tentando relaxar um pouquinho. Fico falando coisinhas engraçadas para passar o tempo e recuperar o fôlego para ler o livro que comprei para o tal TCC.
Na mesa da cafeteria, bebericando um cortado pra lá de especial, passa por mim um dos vendedores, mais jovem do que eu, com certeza, e me diz jovialmente:
-Oi, guriazinha, tudo bem contigo?
Eu balanço a cabeça sorrindo para responder ao gentil cumprimento.
“Guriazinha? Eu?”, penso meio surpreendida. Pode até que não seja realidade, mas a urgência da carnificina arrefece.
E finalizo, respondendo a pergunta que me incomodou durante todo dia:
“Nãããoo, não está na hora. Ainda dá para esperar pelo menos uns dez aninhos”.
E a sereia evapora.

4 comentários:

Giliard disse...

Que essa sereia permaneça vapor por muito tempo, assim como a tua literatura, líquida, ágil, escapando pelas mãos - como tu, do Tempo. Lindo texto.

Adriane dias bueno disse...

Eu também espero Giliard. rsrsrs
Gostei do texto também e fico feliz que os leitores estejam gostando.
Abraços e grata pela visita.

Na Ponta da Língua disse...

Nada de se preocupar com o tempo - este senhor surdo - as cicatrizes da escrita marcam muito mais...

Adriane dias bueno disse...

Oh! Com certeza Vanessa. Percebo isso toda vez que estou corrigindo meu novo livro pra publicação!!
Quão assustadoras são as palavras atemporais que saltam no papel!!!!
Obrigada pela visita.
Bjs