sábado, 23 de fevereiro de 2013

NO INTERIOR DA GARRAFA



“Estranha viagem. Eu fico observando as multifacetas cores que surgem diante de meus olhos, em intrigantes formas. Viajo por paisagens irreconhecíveis. Navego por mares inóspitos. Atraco em ilhas ignotas.
Fluidez. minha mente escorrega de um ponto a outro, de um pensamento, ou lembrança à outra, intermitentemente. No fundo de tudo prevalece o griz nebuloso, prenunciando uma tempestade que nunca chega.
Será que chegará?
Dúvida perturbadora, que, às vezes se esconde, às vezes se deixar apenas entrever, mas para a qual eu nunca encontro resposta.
‘Só o amanhã dirá’, penso entretida já com outras cores, outras formas, outros mares, ilhas ou planetas.
Um pensamento se insinua suavemente entre os demais. Lembro por um instante, com doloroso amargor, que ainda não compreendi tudo o que está ocorrendo. Mais amargo ainda: os amigos não compreenderam também; talvez nunca compreederão. Será por causa de meu teimoso silêncio?
Nem aceitação, nem negação.
Estágio intermediário?
As cores vibrantes, as formas exóticas, os lugares ainda inexplorados e ignotos perdem momentaneamente sua exuberância, dispersando aos poucos o interesse que tanto me despertam.
Eu me deixo levar pela sedução do cinza nebuloso, da aridez, da escuridão de um recanto de minha mente, inconsciente que isso aumenta a amargura, o medo, mas eu não posso fazer nada já que estou irresistivelmente atraída por aquilo que ainda não conheço plenamente (ou sim, mas não admito?) e levemente cansada de tanto fulgor e incandescência.
Desacostumada a não viver mais as sensações felizes ou lúgubres, eu me deixo arrastar pela melancolia que começo a sentir.
Sinto-me totalmente aliciada por esta percepção de impotência, tristeza e torpor. E gosto de melindrar a doce ferida que isso provoca. Então me deixo conduzir, em estado de êxtase, como um autômato, pelos corredores frios, obscuros e vazios da angústia que estou experimentando.
Deslizo por casas estranhamente sombreadas, quartos silenciosos e solitários, embora guardem certa presença, ou sensação, de que já foram habitados em algum momento de minha longa história.
Eu revejo filmes antigos, ouço músicas há muito pedidas, releio velhos livros. Sinto seus cheiros, suas páginas amareladas; tento visualizar quem já os folheou.
Estarão apenas em minha memória?
Eu me tornei estrangeira no meu próprio mundo, inadequada, fora de época. Ou seria de horário? Por isso meu corpo recebe uma mensagem do cérebro: ‘Movimente-se’.
Me ponho a arrumar o ambiente em que moro de forma frenética. Limpo a cozinha e o banheiro até as paredes, janelas e chão reluzirem. Passo para a sala de visitas e afofo as almofadas, espano o pó pouco existente no local, passo lustra móveis, reorganizo as estantes, os cds e dvds. Rumo aos quartos e organizo outra vez o que já estava arrumado.
Até que em algum momento eu sinto que paro totalmente. Exauriram-se minhas forças físicas. Meu corpo não me obedece. Me deito no sofá. Os olhos se fixam num único objeto. Não quero ler, não quero falar, nem ouvir ou ver nada, muito menos qualquer outro ser humano. Minhas sinapses parecem que entraram em curto, em razão da atividade física demasiada.
Ou teria sido em razão dos pensamentos que se sucediam de forma incontrolavelmente exaustiva; passado, presente e futuro misturados e desordenados, correndo pelos neurônios como uma manada desembestada, mesmo quando quando eu me esforcei tanto para reprimi-los com a faxina que eu me impus?
Acabo me enrocando em mim mesma. Me fecho para todos e para meu próprio ser. Minha própria mente não me reconhece mais. A sedução griz começa a acabar e somente a sensação de dor fica latejando dentro do peito, sufocando, apertando minha garganta.
Eu acredita piamente que vai morrer hoje.
Então eu choro por dentro. Sinto correntes de água invadindo meu interior, sem parar, como se uma grande represa se houvesse rompido no meu mundo interno, afogando todas as cores, formas, mares, ilhas e planetas alegres e coloridos, acabando com qualquer sentimento de calor ou aconchego, restando apenas lama e destroços daquilo que um dia foi todo um universo que criei.
Os dias, semanas ou meses passo num terrível transe. Até que uma pontinha de raio de sol começa a brilhar ao leste, me trazendo certa paz, uma perspectiva de novas possibilidades, cores, formas, viagens marítimas ou interplanetárias.
Sei que irei transitar por muito tempo entre um estado de ânimo e outro. Mas as cores exóticas e minhas estranhas viagens irão recomeçar novamente, enquanto a tempestade nebulosa ficará a espreita, esperando uma nova oportunidade de infligir sua força sobre mim”.
Hoje Rúbia releu este trecho de seu diário pela última vez.
Arrancou a folha do caderno, enrolou a mesma e a empurrou para o interior de uma garrafa que lacrou e lançou na parte mais distante da Praia do Cassino.
Quem a encontrar não saberá o que terá acontecido com a moça de sentimentos desfacetados.
E ela... ela sinceramente já não se importa mais.

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