quinta-feira, 13 de setembro de 2012

PADARIA



“‘De amarga basta minha vida’, já dizia minha avó”, declarava incessantemente um senhor idoso, sentado junto ao balcão da padaria, bebericando seu café de praxe.
E resmungava para si mesmo, embora todos o ouvissem: “Deixa ela, deixa ela. Ela ainda tá na idade da ilusão. Eu? Eu não. Já passei disso. Sou de outra classe. Deixa ela, ela tá na idade da ilusão.” Me perguntei se ele estava falando da garçonete que lhe atendeu sorrindo ou se de alguma menina que conhecera em outros tempos. Não sei definir. Tudo nele era diferentemente estático e transitório.
E o senhor ria e batia palmas, falando com as atendentes que o conheciam já, de outros cafés, horas, dias e épocas. “E ainda tenho três pontos para bater hoje”. Ele contava nos dedos: “A outra padaria, a lotérica e...”. Não lembrava qual era o último. “Mas são outros três pontos pra bater”.
Eu pensei: “O que ele vai fazer em outra padaria?” Talvez encontrar outra menina que ainda vivia na idade da ilusão...
Uma atendente trouxe sua encomenda de pão. “Tem gente que é tão séria”, ele disse e pensei que me olhava e falava de mim. “Sou?”, eu o interroguei em silêncio. Me peguei tentando sorrir naturalmente para afastar a má impressão. Mas ele já terminara seu café e estava saindo, encurvado, arrastando seus sapatos atemporais pelo piso da padaria.
“Eu também não estou mais na idade da ilusão, nem na da desilusão total. Contudo, já não carrego muitos sonhos”, pensei... séria? Sorri da perspicácia envelhecida do senhor que deixou o estabelecimento para ir bater mais três pontos durante sua caminhada solitária.
Gostaria de ter falado com ele, ouvir suas longas histórias de velho, alguns diriam, amalucado, de ter o mesmo despudor que lhe permitia falar o que pensava, bater palmas ou rir alto, mesmo que rissem dele. Ele havia chegado à idade em que a pessoa não se preocupa mais com míseros detalhes.
Assim como esse menino, que sentou na mesa ao lado e, de repente, agora resolveu puxar papo comigo. Deve ter cinco anos no máximo. Mesmo sendo perigoso, ele está na idade de não se importar com quem puxa conversa. Isso me preocupa um pouquinho, porque eu ensinaria meus filhos a não falarem, nunca, com estranhos.
No entanto, isso seria totalmente benéfico? Impediria efetivamente que algo de ruim acontecesse com eles? Não sei, as vezes me parece que o excesso de desconfiança acaba subtraindo alguma coisa das crianças, alguma coisa imprescindível, mas que eu não consigo decifrar totalmente. Será porque eu nunca fui uma?
E ele, confiantemente, me pergunta se preciso de ajuda, o que eu estou fazendo àquela hora na padaria, se eu trabalho e no que, porque eu não desenho que nem ele, numa sucessão de questionamentos que me divertem, mas procuro responder com seriedade. Devem ser perguntas importantes para o guri.
Ele conta sorrindo que também gosta de vídeo game, mas que o dele está estragado, que ainda não sabe ler e finaliza com mais uma pergunta: “Que livro azul é esse em cima da mesa?” Como explicar para um ser tão pequeno o que é um processo, que a soma de todos os problemas que um adulto pode ter e não consegue resolver acaba se tornando um livro azul para que um juiz, com bom senso ou carente deste, determine a solução ou não?
Então eu explico que o tal livro, se chama processo, que quando uma pessoa tem um problema ela diz isso para uma pessoa chamada juiz, junta um monte de folhas nesse livro e depois o juiz diz como o problema vai ser resolvido. E olho para ele, tentando saber se ele compreendeu o que eu disse. Ele me olha e diz: “Ata”. Acho que a luzinha que vi em seus olhos podem significar que ele compreendeu algo do que eu disse... ou não.
Logo ouço o chamado de uma senhora e um pedido de desculpas pelo incômodo, pois seu filho é muito conversador. E eu digo que não foi nada, que o papo estava muito bom. “Quem dera alguns pais deixassem que seus filhos fossem mais conversadores”, penso, enquanto o menino começa a se afastar.
E ai me lembro de perguntar o nome dele. Só agora. Mas é que eu nunca fui muito boa em estabelecer novos relacionamentos, ainda mais com velhos resmungadores ou meninos que perguntam o que são livros azuis. Ele me responde e sai correndo atrás da mãe, enquanto agradeço a conversa e digo que foi um prazer conhece-lo. Ele volta correndo e diz que também gostou de me conhecer. E isso, essa pequena frase me deixa tão contente que nem sei explicar o porquê.
E Iago, não o de Shakespeare, mas esse menino, levando seu pequeno e vibrátil corpo, sua boquinha conversadora, que, na sua inocência, me ofereceu ajuda, pois parece desejar ser um herói, foi embora rapidamente, enquanto eu o observava sorrindo com o desfecho da nossa conversa.
“O que será que te fez falar comigo, doce Iago?”, fiquei pensando quando ele desapareceu totalmente da padaria. “Por que querias me ajudar?” Tentei imaginar minha face, como ela estaria quando o pequeno mancebo me interpelou. Eu estaria parecendo desolada, triste, cansada, desiludida? Ou ele, na ilusão de que era um pequeno cavalheiro, apenas quis chamar a atenção para sua bravura?
Ah! Iago, tu já te foste e eu continuo sentada na mesma mesa, com meu livro azul, terminando meu cappuccino, enquanto o tempo transcorre lentamente e não encontro palavras para entender tudo isso.
Agora só resto aqui dividida entre o despudor amalucado da velhice e a cândida inocência da meninice. Quem dera eu pudesse ter ambas, sem que, ante a opinião prosaica, me tornasse ridícula.

3 comentários:

José María Souza Costa disse...

Vim lê o seu conto. Achei interessante. Felicitações, minhas.

adriane disse...

Caro José Maria Souza Costa:

Grata pela leitura e comentário.

Adriane

Dalva Molina Mansano disse...

Adriane, só agora pude ler seu conto e garanto a você que foi um excelente momento de leitura. Já no primeiro parágrafo, fiquei com a curiosidade aguçada, querendo entender de onde o idoso trazia as ideias e as lembranças. Você foi amarrando fatos e personagens de maneira tão natural que a trama foi conduzida de forma brilhante e clara. E conseguiu abordar os dois extremos da vida das pessoas (a infância e a velhice), mostrando o que de mais importante há nos dois momentos: a espontaneidade e a autenticidade no comportamento e a pureza natural do ser humano. Adorei o texto claro e bem arranjado! Muito agradecida pela oportunidade da leitura! Quero ler sempre as suas criações! Abraço!